domingo, 16 de junho de 2019

Juízes empregam "constelação familiar" para tratar vícios e recuperar presos


O programa, considerado uma das boas práticas da Justiça Estadual, usa a técnica da constelação familiar no atendimento aos jurisdicionados.

Com louvor, transcrevo a matéria publicada, originalmente, na Agência CNJ de Notícias (veja link ao final). Que prospere muito esta prática! Isto, sim, é ir ao cerne da questão.

"José Antônio foi julgado e condenado a seis meses de detenção após se envolver em uma disputa por um poço em uma comunidade no Ceará, estado que há seis anos enfrenta estiagem severa. O rapaz, que é líder comunitário, defendia a permanência do uso coletivo da água pelos moradores da localidade em um incidente em que um advogado se apossou da fonte.
José Antônio é o nome fictício de um jovem réu primário que cumpre pena prestando serviços comunitários e tenta entender a reviravolta em sua vida em sessões de "constelação familiar", técnica alemã cada vez mais utilizada pela Justiça na solução de conflitos.
A história do jovem e as circunstâncias de sua detenção foram relatadas pela juíza Maria das Graças Quental, titular da Vara de Execução de Penas e Medidas Alternativas, em Fortaleza/CE, uma das responsáveis pelo programa Olhares e Fazeres Sistêmicos no Judiciário, no Ceará.
O programa, considerado uma das boas práticas da Justiça Estadual, usa a técnica da constelação familiar no atendimento aos jurisdicionados. A magistrada conta que as sessões de constelação ajudaram a levar alento ao jovem no entendimento de que há uma pena a cumprir, ainda que ele se sinta injustiçado.
“Ele foi condenado e ficou extremamente revoltado. Então, eu disse, vamos fazer assim: você vai usar seu tempo de pena para estudar e prestar serviços à comunidade e entender o que aconteceu para que isso não se repita”, lembrou a juíza Quental. 

Constelar para tratar a revolta 

A conversa da juíza com o jovem ocorreu durante uma audiência em que a ela o convidou a participar da constelação familiar. A magistrada explicou, ainda, que o tempo de participação nas sessões será usado para reduzir a duração da pena.
Maria das Graças conta que essa é a situação de centenas de jovens que se tornaram réus primários envolvidos em fatos em que são marcantes a condição da estrutura familiar, a baixa escolaridade e as condições de pobreza. Somem-se a isso, diz a juíza, os sentimentos de revolta e abandono que sentem ao serem encarcerados.


A técnica tem sido usada entre cumpridores de alternativas penais, para evitar que reincidam no crime, oferecendo oportunidade para que entendam os motivos que os levaram a delinquir.
“A maioria deles sucumbiu à droga, mas são réus primários com bons antecedentes. São jovens que não fazem parte de organização criminosa, não apresentam periculosidade e que precisam ser atendidos para não se tornarem reincidentes”, observou a juíza.

Tratamento do vício 

Em Santa Catarina a constelação familiar vem sendo usada entre presos com problemas com drogas e que tenham conflitos familiares. A iniciativa é apoiada pela Vara da Família do Norte da Ilha de Florianópolis e que também se notabiliza como uma boa prática da Justiça Estadual. 
Nesse trabalho conduzido com detentos da Casa do Albergado Irmão Uliano e do Hospital de Custódia e Tratamento Psiquiátrico, as sessões são usadas para que as pessoas privadas de liberdade entendam que os conflitos que as levaram ao cárcere tiveram origem em padrões familiares de comportamento.
“O Direito é transdisciplinar e se vale da psicologia, da sociologia e da antropologia e de qualquer outra experiência de transformação do conflito”, comenta a professora de Direito da Universidade do Vale do Itajaí e pesquisadora Márcia Sarubbi, responsável por conduzir as sessões de constelação familiar na Casa do Albergado e no Hospital de Custódia.
Ela é, juntamente com Fabiano Oldoni, autora do livro Constelação Sistêmica na Execução Penal, abordagem sobre práticas sistêmicas no direito de família e na violência doméstica. Na Casa do Albergado, as sessões são individuais, abrangendo 50 detentos com idades entre 20 e 50 anos de idade.
“Até o presente momento, em relação aos que aplicamos na dinâmica da constelação e que foram para a rua, nenhum deles voltou a delinquir e todos relatam melhora nas relações com os familiares”, diz Sarubbi.
Entre os atendidos está Paulo Henrique, nome fictício de um homem de 30 anos de idade condenado por homicídio e que fala (em vídeo a seguir) sobre os efeitos da sessão de constelação familiar. Ele relata que tinha um relacionamento complicado com a mãe e o irmão. A técnica o ajudou a perceber esse problema, propiciando a reconciliação e uma melhor estrutura familiar no enfrentamento do encarceramento. 
“A constelação me ajudou a tirar um peso que estava carregando, alguns porquês foram respondidos. Me ajudou a me manter mais calmo e a entender que tudo é um processo”, diz o "constelado" Paulo Henrique, que cumpre pena em Florianópolis.

Problemas mentais

No Hospital de Custódia, o atendimento é feito em um grupo com 20 a 30 detentos criminosos com problemas mentais. São homens condenados por estupro, homicídios (incluindo o de familiares) e roubo com quadros de esquizofrenia, psicopatia e depressão em perda da sanidade mental por uso intenso de álcool e drogas.
Nesse grupo, a constelação familiar é usada por integrantes do Judiciário, a fim de que os detentos compreendam o vício como um propulsor de crimes. A partir da técnica é feito um trabalho com os presos mostrando que eles pertencem a uma família e à sociedade.
Em um segundo momento, as sessões de constelação trabalham o sentimento de aceitação da família de origem e o entendimento dos motivos que os levaram a se tornar viciados e criminosos. “Seja para uma pessoa na cadeia ou para um casal que está se divorciando, esses são momentos de dor e, ao mesmo tempo, de cura. E o Direito vai ao encontro da terapia e promove o reencontro das partes para que a gente trate o conflito e haja pacificação social”, enfatiza Márcia Sarubbi.
Luciana Otoni
Agência CNJ de Notícias"

Publicado no CNJ em 25.abril.2018




Adianta lavar a honra e ir parar no cemitério?





Por Marise Jalowitzki
16.junho.2019
https://marisejalowitzki.blogspot.com/2019/06/adianta-lavar-honra-e-ir-parar-no.html

Domingo à tarde, por aqui, costuma ser um período de calmaria. Após o almoço, onde as pessoas, na maioria,  costumam se fartar de cadáveres de animais e álcool, geralmente vão dormir um sono insano.

Hoje fiquei em casa, ouvindo música, fazendo coisinhas, lendo, fazendo ginástica. Até que ouvi gritos de uma voz feminina:  “Ladrão! Ladrão! Vagabundo!”. Primeiro procurei desviar a atenção, pra não ferir minha serenidade. Mas não adiantou, pois a coisa continuou e adicionada com a voz masculina, e os dois passaram a se agredir mutuamente, muito coléricos e com termos bastante impróprios. A mulher estava fora de si e o homem não se economizou. De repente, barulho de pneus, creio que o homem deu ré no carro e direcionou à mulher. Ela continuava gritando: “Vai me matar? Vai me matar, ladrão, vagabundo?”... fechei os olhos e entrei em forte movimento de prece. Este homem tinha de ir embora, urgentemente. Era ele que estava com o carro, seria mais fácil sair do local. Ela teria de enfrentar sua impotência, mas um feminicídio estaria sendo evitado! 

FELIZMENTE, o homem fez isto mesmo: ainda foi gritando alguns impropérios, ela continuou também, mas tudo não passou disso!

Nas horas de raiva, não se pode perder a razão, o bom senso, o equilíbrio. Tanta tragédia acontecendo o tempo todo! Se há leis, que sejam seguidas, que sejam denunciadas as agressões, sejam da natureza que for. Não tenho conhecimento dos fatos destes dois personagens, quem tem a razão, mas estava evidente que a mulher era a parte mais frágil no confronto. E isto não pode ser perdido de vista. 

Nunca.

Denunciar, processar, mas não enfrentar assim, de peito aberto.

Venturosamente, tudo acabou sem morte, nem sangue. Ela deve ter sido socorrida por vizinhos e espero que vá, agora, lutar por seus direitos, ainda que demore.

Ainda tenho a lembrança de muitas mortes, uma bastante recente, de uma empreendedora aguerrida, que iniciou relacionamento com um homem diametralmente oposto a ela: pouca iniciativa, quieto, retraído. Ele começou a ter muito ciúme dela, queria que encerrasse a empresa que possuía e que ficasse vivendo só sob as custas dele. Ela não quis. Ele a conhecera assim. E passaram a se agredir verbalmente, cada vez de maneira mais pesada. Ele também a agrediu duas vezes fisicamente. Na segunda, foi fatal. Hoje, ela morta, ele, na cadeia. Relacionamentos tóxicos.

Como devemos nos afastar deste tipo de convívio!!! Muitas vezes não está nas mãos de uma pessoa o controle, então, sim, a única saída é afastar-se e procurar seus direitos.

Não, não adianta lavar a honra e ir parar no cemitério.

Voltei às minhas lides e fui ouvir um mantra.





 Marise Jalowitzki é educadora, escritora, blogueira e colunista. Palestrante Internacional, certificada pelo IFTDO - Institute of Federations of Training and Development, com sede na Virginia-USA. Especialista em Gestão de Recursos Humanos pela Fundação Getúlio Vargas. Criou e coordenou cursos de Formação de Facilitadores - níveis fundamental e master. Coordenou oficinas em congressos, eventos de desenvolvimento humano em instituições nacionais e internacionais, escolas, empresas, grupos de apoio, instituições hospitalares e religiosas por mais de duas décadas Autora de diversos livros, todos voltados ao desenvolvimento humano saudável. marisejalowitzki@gmail.com 



segunda-feira, 22 de abril de 2019

Quociente Emocional - Teste





Marise Jalowitzki
22.abril.2019
https://marisejalowitzki.blogspot.com/2019/04/quociente-emocional-teste.html

Por pura convicção, muito de meu tempo profissional dediquei à abordagem emocional. Percebo, quanto mais vivo, que saber lidar com as emoções não é só importante, é a base, o sustentáculo do ser humano. Bem pouco adianta o indivíduo possuir um nível cognitivo relevante se, na primeira (ou na segunda, ou na terceira) investida que a vida e seus desafios dá, ele não consegue assimilar o que aquele desafio está querendo passar e de como deve reagir frente ao impasse. Estes desafios podem ser trapaças e fraudes de profissionais do entorno, podem ser ofensas recebidas de pessoas controversas, podem ser perdas de origens diversas, fragilidades, doenças, etc.. Nosso cotidiano é imprevisível e são as coisas que fogem de nosso controle que nos testam, o tempo todo. Por isso, quanto mais autoconhecimento, mais chances de superar as dificuldades do percurso. Superar não significa, necessariamente, "vencer"; tem mais a ver com saber enfrentar e, ao final, ACEITAR os resultados obtidos.

Assim, deixo este teste de Daniel Goleman, extraído do jornal norteamericano USA Weekend. Questão que continua atualíssima.


                                                      



1. Tenho consciência [até mesmo] das minhas
   mais tênues emoções assim que acontecem

2. Uso meus sentimentos para ajudar a tomar
   decisões importantes na vida

3. O mau humor (meu e dos outros) me abate

4. Quando estou bravo, das duas uma: ou          
    estouro, ou fico remoendo a minha raiva 
    em silêncio

5. Sei esperar pelos elogios ou gratificações 
    quando alcanço meus objetivos

6. Quando estou ansioso em relação a um 
    desafio, como falar em público ou realizar 
    um teste, tenho dificuldade em ser objetivo 
    e me preparar

7. Em vez de desistir diante de obstáculos ou
    decepções, permaneço otimista e 
     esperançoso

8. As pessoas não precisam me falar o que  
    estão sentindo. Percebo por mim mesmo.

9. Minha percepção aguçada sobre os 
    sentimentos alheios me faz compreensivo 
    em relação aos momentos difíceis pelos quais  
    estão passando

10. Tenho problemas para lidar com conflitos e
       com o baixo astral em relacionamentos

11. Posso sentir a 'temperatura' de um grupo ou  
       uma relação, e expor sentimentos não ditos

12. Posso acalmar ou contar sentimentos aflitivos
      de forma que isso não me impeça de continuar
      fazendo o que tenho de fazer.



PONTOS



Questões 1, 2, 5, 7, 8, 9, 11 e 12

Sempre              4 pontos
Geral                 3 pontos
Às vezes           2 pontos
Raro                  1 ponto
Nunca               0 ponto


Questões 3, 4,6 e 10

Sempre              0 ponto
Geral                 1 ponto
Às vezes           2 pontos
Raro                  3 pontos
Nunca               4 pontos


RESULTADO

Acima de 36 pontos: Você provavelmente tem uma inteligência emocional superior e consegue
                                     lidar bem com os desafios da vida

De 25 a 35 pontos:     Você tem um bom nível de inteligência emocional e é bom que continue 
                                     na senda do autoconhecimento para continuar assertivo

Menos de 24 pontos:  Importante que você se proporcione mais leituras e contatos edificantes,
                                     pois seu perfil merece aprimoramento. E isto é possível!


Goleman, Daniel






quinta-feira, 18 de abril de 2019

Notre-Dame e a fome no mundo - Até mesmo os franceses começam a questionar a generosidade seletiva dos bilionários

E pensar que o Humilde e Sublime Peregrino deixou legados de Humildade, de Solidariedade, de Amor ao Próximo como a si mesmo!!
E é "venerado" na Notre Dame que atrai os bilhões para sua reforma, enquanto o prato dos famintos continua vazio!!! 



Marise Jalowitzki
18.abril.2019
https://marisejalowitzki.blogspot.com/2019/04/notre-dame-e-fome-no-mundo-ate-mesmo-os.html

Pelamor! Doações de bilionários não param e já ultrapassam os 4 bilhões! O que será que move pessoas assim, além do destaque, da fama, da notoriedade?

Com certeza, o coração que lá bate, bate muito diferente daqueles que possuem compaixão!


Esta triste reflexão também tem acompanhado meus dias, em especial após o incêndio de Notre-Dame, quando foram primeiramente arrecadados 2,6 bilhões em questão de dias (inclusive de uma bilionária brasileira - Sra. Safra). Por que uma mobilização assim nao acontece para erradicar a fome dos milhões que morrem e de mais milhões que padecem?

Valores totalmente invertidos! E são os que detêm o poder (financeiro e de influência das massas). Tristíssimo e, enquanto o cidadão-médio não se conscientizar e se aprofundar para ter opinião séria, continuará sendo isso!!!

A fome no mundo NÃO é uma "consequência inevitável"... é o produto da irresponsabilidade humana, dos que podem (e devem) pensar também nos outros, não somente em suas tão finitas vidas!!

fome diaria...
 Será que aqui algum bilionário se sensibiliza? Claro que não! Não dá destaque internacional, é "apenas" a fome de milhares a cada dia, não são relíquias!!!

820 milhões de pessoas vivem em miséria total no planeta, e sentem fome DIARIAMENTE, como todos!






foto tirada em 2018
 Esta foto é do semi árido brasileiro, recente, onde, segundo relatam os médicos, a população voltou a ter as panelas vazias, e, o que conseguem comprar, são saquinhos prontos (comida industrializada é mais prejudicial, bem sabemos) pois não possuem dinheiro para comprar gás para os fogões, nem lenha para os fogões de barro...





crianças, qual seu futuro?




Fome NÃO PODE ser incorporada à paisagem humana, como se fosse algo "normal"!!!






E pensar que o Humilde e Sublime Peregrino deixou legados de Humildade, de Solidariedade, de Amor ao Próximo como a si mesmo!!
E é "venerado" na Notre Dame que atrai os bilhões para sua reforma, enquanto o prato dos famintos continua vazio!!! Quanta hipocrisia, meu Deus! Até quando?

Agora até mesmo os franceses começam a se questionar esta "generosidade seletiva" - Claro que eles se pautam em impostos e uma visão nacionalista. 
Leia aqui:

Gente, o planeta é a casa de todos!! As demarcações foram realizadas pelos chamados "civilizados"!!! Até quando?

 Marise Jalowitzki é educadora, escritora, blogueira e colunista. Palestrante Internacional, certificada pelo IFTDO - Institute of Federations of Training and Development, com sede na Virginia-USA. Especialista em Gestão de Recursos Humanos pela Fundação Getúlio Vargas. Criou e coordenou cursos de Formação de Facilitadores - níveis fundamental e master. Coordenou oficinas em congressos, eventos de desenvolvimento humano em instituições nacionais e internacionais, escolas, empresas, grupos de apoio, instituições hospitalares e religiosas por mais de duas décadas Autora de diversos livros, todos voltados ao desenvolvimento humano saudável. marisejalowitzki@gmail.com 





quarta-feira, 10 de abril de 2019

Irmão mata irmãozinho - O Poder da Palavra - Responsabilidade dos Pais



Marise Jalowitzki
07.abril.2019
https://marisejalowitzki.blogspot.com/2019/04/irmao-mata-irmaozinho-o-poder-da.html

Histórias narradas ou histórias vividas, principalmente na primeira infância, ajudam a formatar o código de ética e conduta de cada indivíduo, quer se lembre delas ou não. Estas narrativas exercem um enorme poder e influência durante a vida, determinando atitudes e reações. Por isso, muito importante aumentar o autoconhecimento, sempre, para que cada se entenda o mais possível e, a partir daí, aprimore sua forma de expressão, de ação, de reação, de decisão.

Como já é sabido, nosso subconsciente (ou, por vezes, até mesmo o inconsciente) armazena fatos ocorridos e que, por boa parte da existência, nem lembramos. Assim acontece com todos. E é sabido, também, que, à medida que envelhecemos, muitas cenas e situações afloram de nossa memória remota. Está acontecendo comigo. 

O foco deste post é sobre o poder da palavra proferida. E sobre a responsabilildade dos genitores, diariamente, com aquilo que falam, com o que comentam, até mesmo para com as brincadeiras que fazem. Há muitas crianças (não são somente os diagnosticados como autistas), especialmente nos tenros anos, que levam ao pé da letra tudo que escutam. Que entendem e assimilam as coisas na forma exata com que são expressas. Assim:
- 'por as barbas de molho' será exatamente interpretado assim, e será um problema se for uma criança, seja menino ou menina, já que não possuem barba!
- 'pé no saco' - já imaginou se você cansou de alguma birra e, como mãe ou pai profere esta expressão a seu filho? E ele entender que, simplesmente, tem de colocar o pé em um saco, seja qual for??
E assim podemos enumerar muitas, muitas expressões que fazem parte de nosso dia a dia e que podem gerar confusão na cabecinha dos pequenos.

Hoje [re]lembrei uma narrativa trágica que minha mãe, ofegante, nos contou em um final de tarde. Reuniu a todos (éramos oito: pai, mãe e seis irmãos). 

Tratava-se de uma família inteira que morrera naquele dia. Eram pessoas conhecidas do meu pai e de minha mãe.

Casal de agricultores, jovens adultos, possuíam um menino de dois, quase três aninhos e um outro pequeno recém nascido, nem meio ano de idade. A mãe queria que tivesse nascido uma menina ('pra formar um casal') e sempre pronunciava isto quando o pequeno brincava, sorria, mamava, dormia. 
- Ah! Como é lindo nosso bebê! Como queria que tivesse nascido uma menininha pra me fazer companhia!
O pai, amoroso, dizia:
- Ele é muito lindo mesmo! 
- Mas é um menino! - redarguia a mãe.
E o pai, em tom de brincadeira, dizia:
- Ele é tão bonitinho, que é só cortar o tchico (como se fala 'pinto', pênis, aqui no sul) que fica uma menina...
E aquilo seguiu por várias semanas, brincadeira tola, sem nenhuma intenção além de rir, de amenizar o ambiente, mas de uma irresponsabilidade atroz! Todos sabiam da imbecilidade desta comparação, alguns vizinhos diziam pra o homem parar com aquilo, outros riam, achavam engraçado.

Tarde dessas, o pai na lavoura, a mãe lavando roupas do riacho não muito longe dali, os dois maninhos em casa, a mãe ouve o choro alterado do bebê. Não dá a devida importância, pois muitos pais deixam os filhos chorar pois 'fortalece o pulmão'...  Foi um choro forte, continuado e depois, silêncio. Dali a segundos, o menininho de quase três anos vem correndo, facão na mão, manchas de sangue também na roupa e, aturdido, apreensivo, assustado, gagueja:
- Mutter, eu quis fazer a menininha pra senhora, cortei o tchiquinho do mano, ele chorou bastante, mas agora tá quietinho. Parece que adormeceu.

A mãe solta um brado e diz:
- O que tu fez, desgraçado? Tu machucou teu irmão!??!!

E, sem pensar em mais nada, bate com a táboa de madeira de esfregar a roupa, na cabeça do pequeno que cai no chão, inerte. Ela entra correndo em casa e encontra o bebê já sem respirar. Apavorada e revoltada (com o outro filho), volta correndo ao local que o deixara, pronta pra lhe dar uma surra. O menino continua imóvel no mesmo lugar, inerte. Ela o chama, sacode, põe a mão no pescoço dele, no pulso, e se convence que este filho também está morto, e pelas suas mãos. Em total desespero e descontrole emocional, vai correndo até o poço e se joga dentro dele, morrendo em seguida, afogada.

Horas depois, quase escurescendo, chega o pai da lavoura e se depara com os dois filhos mortos, os chinelos e o avental da esposa à beira do poço de água e presume o ocorrido. Dá-se conta do que o pequeno de quase 3 anos fizera e monta toda a cena, percebe que o menino realizou a brincadeira que ele, pai, fazia... vai até o quarto, pega o revólver e se dá um tiro na cabeça. 

Os vizinhos, que mal e mal ouviram algum grito e o estampido, deixam para o outro dia para procurar a família, esperando que as coisas se 'ajeitem'. Na manhã seguinte, encontram este terrível quadro e montam a sequência, com a ajuda da polícia.

E a minha mãe, naquela tarde de nem sei que dia de semana, reforçou muito em cada um de nós para que cuidássemos sempre o que pensamos e o que falamos, ressaltou a importância de se escolher bem as palavras, de pesar o significado de tudo que se diz, de sempre pronunciar coisas boas e evitar dizer besteiras, que dirá maledicências. O pai concordava.

Então, tudo dito.
Deixo para reflexão este caso grotesco, uma triste e dantesca história, que pode ensinar sobre a importância de se pensar no que se diz, e de como se diz. E que não precisa acontecer uma tragédia pra que um adulto se dê conta do quanto ele é modelo e exemplo para os filhos, e do quanto aquilo que diz vai influenciar os pequenos recém chegados ao planeta.

Paz e Luz!

 Marise Jalowitzki é educadora, escritora, blogueira e colunista. Palestrante Internacional, certificada pelo IFTDO - Institute of Federations of Training and Development, com sede na Virginia-USA. Especialista em Gestão de Recursos Humanos pela Fundação Getúlio Vargas. Criou e coordenou cursos de Formação de Facilitadores - níveis fundamental e master. Coordenou oficinas em congressos, eventos de desenvolvimento humano em instituições nacionais e internacionais, escolas, empresas, grupos de apoio, instituições hospitalares e religiosas por mais de duas décadas Autora de diversos livros, todos voltados ao desenvolvimento humano saudável. marisejalowitzki@gmail.com 




domingo, 7 de abril de 2019

Plante uma árvore e faça a analogia com seu filhote

Proporcionar, dentro das possibilidades de cada cuidador, o melhor ambiente para a pequena vida em desenvolvimento é aumentar-lhe as chances de sobreviver a esta selva chamada sociedade
Imagem: Sequóias - 100 m altura, 7m diâmetro na base, até 3.000 anos


Marise Jalowitzki
07.abril.2019
https://marisejalowitzki.blogspot.com/2019/04/plante-uma-arvore-e-faca-analogia-com.html


Então, pais, o que pode ser feito quando a cabeça de seu filho está noutra? Quando os valores assimilados já se sedimentaram em outro decálogo de convívio? Sei que alguns não querem aceitar, mas insisto sempre de novo e de novo: toda árvore gigantesca nasce de uma pequena e frágil plantinha. Precisa receber água em dosagem compatível, tem de ficar um tanto livre de ventanias, borrascas, granizo. Tem de ter espaço para se desenvolver. Tem de receber adubo.

O que se traduz, em analogia ao ser humano, em: Cuidados constantes, o mais amorosos e afetuosos possíveis. Sempre que um pai ou uma mãe se exceder, é preciso fazer um reconhecimento, um mea culpa e, sim, pedir desculpas ao pequeno pelo excesso. Mostrar que todo erro é uma nova oportunidade para um novo acerto. E que, nesta prática, eles, os erros, vão ficando sempre menores e espaçados no tempo. Não repetir tal excesso é primordial, pra que a força do exemplo possa se tornar modelo.

E, por fim, estar junto, monitorando, para ver se a 'árvore' está crescendo forte, ou, se precisar, conceder um novo arrimo. 

Como se traduz este 1º Cuidado - Precisa receber água em dosagem compatível, tem de ficar um tanto livre de ventanias, borrascas, granizo - quanto mais tenra a idade da criança, mais ela puxa pra si a responsabilidade de tudo que acontece no seu entorno. Um dos relatos mais emocionantes que li é do Gabor Maté, quando fala de sua origem. Nascido em meio à guerra, tendo perdido o pai quando tinha meses, cresceu vendo a mãe bastante triste e chorosa, sempre cabisbaixa. Ele pegou pra si a culpa desta tristeza! "Sou uma decepção pra minha mãe! Ela está triste por eu ser como sou!"... e, no caso dele, não era nada disto. A tristeza era para com as perdas que a mãe havia tido, incluindo o marido (pai de Gabor), era a tristeza e a desesperança que ela ela estava sentindo para com os problemas sérios que estava enfrentando. Imagina se é assim em situações onde a criança é amada, como será quando uma criança é verdadeiramente rejeitada, não aceita, não querida?

Proporcionar, dentro das possibilidades de cada cuidador, o melhor ambiente para a pequena vida em desenvolvimento é aumentar-lhe as chances de sobreviver a esta selva chamada sociedade e, muitas vezes, significa conceder-lhe capacidades para driblar os problemas e desafios e enfrentar a vida com alternativas justas e válidas.

Este, bem sabemos, é o sonho de cada mãe amorosa e de cada pai amoroso. Os primeiros anos (o que inclui o período gestacional) são os que marcam mais profundamente. Marcam pra sempre, ainda que o consciente sequer lembre dos fatos. As reações surgem e se costuma ouvir ou dizer: "Foi mais forte que eu!" Está lá, lá na memória remota. Quanto menos lixo armazenado, mais habilidades para lidar assertivamente.

Como se traduz este 2º Cuidado - Espaço para se desenvolver. Receber adubo - a criança e o adolescente precisam de espaço para se manifestar, convívio afetivo de qualidade para perceber que está em um ambiente acolhedor, onde é aceito do jeito que é. Que, sim, os pais são sujeitos a falhas (como todos), mas que, profundamente, ele é amado. 




Conversar conversas triviais e também bastante sérias. Estar junto. 

Os pais, bem mais que se escandalizar com o que o jovem pode expressar, precisam acolher e REDIRECIONAR, sutilmente, mostrando todos os prós e contras de determinadas decisões. 

Mostrar outros caminhos, outras alternativas. E não dar contra tudo o que o jovem demonstra querer fazer. Ainda que um pai conservador ou uma mãe conservadora possa considerar 'esquisito'. Se não acarretar desastre para ninguém, ajude-o! Incentive!

Como se traduz este 3º Cuidado - Ver se a 'árvore' está crescendo forte. Fortalecer pela prática - Há sempre formas mais amenas de 'botar pra fora' a agressividade, a inconformidade, a ansiedade. Esportes em conjunto, deixando espaço para ELE se mostrar e não como vejo muitas vezes, situações onde os pais é que querem ser os astros e não raro até filmam os filhos em situações dificultosas e mesmo de fracasso, para depois expor na web e troçar do pequeno com os amigos e todos os demais que se aproximarem... Isto é humilhação e não divertimento, e uma das maiores causas de revolta dos garotos e garotas. Em um estágio em que precisam se afirmar frente aos demais, especialmente junto aos pares, o que precisam é de acolhimento, validação, validação, validação. 

A autoestima se forma e se fortalece através da percepção de que se é agradável aos do entorno. Onde não há esta percepção (de ser bem querido e validado), a tendência será sempre procurar outros fóruns, na tentativa de se inserir em um grupo, por mais perigoso e perverso que este possa ser!

Muitas mais que DAR LIMITES é preciso MOSTRAR OS LIMITES que separam as ações de destruição, de desvalia, de medo, criminosas e, muitas vezes, mortais - como a incitação ao ódio nas suas variadas interfaces - e o que assegura um convívio pautado na respeito às diferenças. 

Quando um jovem COMPREENDER a distância que separa estes dois aspectos fundamentais da Vida - o que começa, sim, lá dentro da barriguinha da mãe - vai ficar mais fácil pra ele ESCOLHER qual caminho quer seguir. Porque, sim, NADA garante a um pai, a uma mãe que todos os seus sinceros e desvelados esforços possam redundar nos resultados almejados. Pois cada um, à medida que cresce e assume seu papel na vida, vai DECIDIR o que efetivamente considerar melhor pra si. Mas, com certeza, os genitores terão auxiliado com suas sementes, com suas palavras e, principalmente, com suas ações cotidianas. E a maioria dos seres humanos, tendo este alicerce emocional fortificado, reagem assertivamente, sem violência, sem agressão.



Exemplo é registro indelével.
Diálogo, sempre mais. 
Para isso, tem de estar junto!!!
Quanto menor a criança, maior a admiração pela figura dos pais!
Reinvente-se! 
Arrisque! 
No mínimo, monitore!

COM TODA CERTEZA, com uma autoestima bem constituída, com a autoconfiança bem reforçada, com um sorriso nos lábios e no coração por se saber bem aceito e bem querido, simplesmente NÃO HÁ ESPAÇO para a inconformidade, para sentimentos de menos valia, nem para sofrimentos solitários que tem de buscar escape em espaços dúbios! AMOR É A MELHOR ARMA QUE PODEMOS COLOCAR NAS MÃOS DE NOSSOS FILHOS! Arma que melhora e otimiza todo este estado de coisas! Amor reverbera em todos os corações, ampliando uma energia inerente a todos nós. 







Sobre Gabor Maté



Por Marise Jalowitzki
http://compromissoconsciente.blogspot.com.br/2016/06/o-mito-da-normalidade-gabor-mate-fala.html



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Por Marise Jalowitzki
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 Marise Jalowitzki é educadora, escritora, blogueira e colunista. Palestrante Internacional, certificada pelo IFTDO - Institute of Federations of Training and Development, com sede na Virginia-USA. Especialista em Gestão de Recursos Humanos pela Fundação Getúlio Vargas. Criou e coordenou cursos de Formação de Facilitadores - níveis fundamental e master. Coordenou oficinas em congressos, eventos de desenvolvimento humano em instituições nacionais e internacionais, escolas, empresas, grupos de apoio, instituições hospitalares e religiosas por mais de duas décadas Autora de diversos livros, todos voltados ao desenvolvimento humano saudável. marisejalowitzki@gmail.com 






É possível manter-se forte em um ambiente inóspito?




07.abril.2019
Marise Jalowitzki
https://marisejalowitzki.blogspot.com/2019/04/e-possivel-manter-se-forte-em-um.html

A tentativa de trazer um modelo único de superação continua em voga em nosso mundão imperfeito. Proliferam as receitas prontas, o passo a passo "certo", que "garante" o sucesso na caminhada... claro que isto não existe, pois cada ser é único, fruto de sua própria leitura de mundo, consequência de todas as experiências pelas quais passou e o aprendizado que obteve disso. Então, como assim, passar uma forma única, padronizada, na expectativa de que servirá a todos que dela tomarem conhecimento? Visão parca, pobre, que, infelizmente, continua angariando adeptos. 

E os incautos, ingênuos, na expectativa de serem 'bem sucedidos' (em que, mesmo?) envidam esforços no afã de conseguir o almejado resultado.

Não adianta, não dá certo para todos! Então, o que fazer? Melhor que tudo, e antes de tudo, conhecer-se mais, observar-se mais, sentir-se mais. Aprender a dizer 'não' apenas para as coisas possíveis, para as pessoas possíveis, para situações possíveis. 

Há pouco contatou um pai de família que estava nervoso, impactado. Foi pleitear uma mudança para melhor nas condições de trabalho e o 'patrão' simplesmente lhe mostrou a porta de saída. Simples assim. Ele não esperava por isso. Encontrei-o quase a ponto de chorar. E agora? Apelou para parentes, vai correr atrás em uma situação tão precária como esta a situação trabalhista em nosso país. 

Como dizer 'não' a um gestor impertinente, por exemplo, se isto pode decidir a manutenção ou não do emprego? Impossível, pelo menos no momento, já que, fazendo um balanço, o salário advindo era a atual única fonte de renda e dela dependem dois filhos. 

Então, de acordo com a situação, adequar-se não é covardia, nem indecisão; é sabedoria. 

Planear possibilidades exige prevenção, não remediação. O que significa que pensar em outra fonte de renda, em outro tipo de trabalho, em outro ambiente, a fim de gerar mais satisfação, é coisa que deve acontecer ANTES de pleitear mudanças, que podem gerar imprevisibilidade. 

Planejamento. Metas tangíveis, possíveis e mensuráveis.

Em tempos densos como o que passamos é preciso cautela, exercitar a paciência, analisar todos os cenários e possibilidades. Ao meu amigo, agora, só posso enviar minhas melhores vibrações.

A consciência de estar inadequado ao ambiente, de estar necessitado de outros ares, de precisar demarcar outros territórios, proporciona, por si só, a calma interior necessária para continuar por mais um tempo num ambiente inóspito. A certeza que será por um tempo determinado, tentando capacitar-se para outras atividades rendáveis é adquirida sempre que se tem a visão estratégica do "eu aguento, mas estou vendo coisa melhor e breve vou sair".

Lembrando que toda ação inicia na mente. Isto é: primeiro imaginamos, depois planejamos e só depois agimos. A ação leva em conta todos os cenários. 

Aceitando-se. Admirando-se. Valorizando-se. 
Sendo estratégico.


 Marise Jalowitzki é educadora, escritora, blogueira e colunista. Palestrante Internacional, certificada pelo IFTDO - Institute of Federations of Training and Development, com sede na Virginia-USA. Especialista em Gestão de Recursos Humanos pela Fundação Getúlio Vargas. Criou e coordenou cursos de Formação de Facilitadores - níveis fundamental e master. Coordenou oficinas em congressos, eventos de desenvolvimento humano em instituições nacionais e internacionais, escolas, empresas, grupos de apoio, instituições hospitalares e religiosas por mais de duas décadas Autora de diversos livros, todos voltados ao desenvolvimento humano saudável. marisejalowitzki@gmail.com